A Publicidade de Apostas em Portugal: Entre a Promoção e a Proteção
As redes sociais representam 36,8% das vias de acesso a operadores ilegais em Portugal. É um número que coloca a publicidade — toda a publicidade, legal e ilegal — no centro de um debate com consequências reais para milhões de portugueses. Como é que um mercado regulado equilibra a necessidade legítima dos operadores de promover os seus serviços com a proteção de consumidores vulneráveis?
Nos nove anos em que acompanho este setor, a publicidade de apostas evoluiu de anúncios discretos em sites de desporto para uma presença omnipresente: televisão, estádios, redes sociais, podcasts, influencers. A questão já não é se há publicidade a mais, mas se as regras que a enquadram estão a acompanhar a velocidade a que o mercado se transforma.
Regras em Vigor: Horários, Conteúdo e Restrições
Pedro Hubert, diretor do IAJ, expressou preocupação particular com a publicidade nas redes sociais e pelos influencers no jogo online. A sua posição é equilibrada — regulação e limitação sim, proibição não — mas a preocupação com os canais digitais é clara.
A publicidade de apostas em Portugal está sujeita a regras definidas pelo enquadramento legal do jogo online e pela regulação geral da publicidade. Os operadores licenciados podem promover os seus serviços, mas com restrições: a publicidade não pode ser dirigida a menores, não pode sugerir que o jogo é uma solução para problemas financeiros, deve incluir avisos sobre jogo responsável e não pode usar testemunhos de figuras que sejam particularmente influentes junto de audiências jovens.
Os horários de emissão televisiva para publicidade de apostas são regulados, com restrições nos períodos de maior audiência infantil e juvenil. As plataformas digitais dos operadores licenciados devem incluir informação sobre jogo responsável e ligações para entidades de apoio.
Na prática, a aplicação destas regras é desigual. A publicidade televisiva é relativamente fácil de monitorizar e fiscalizar. A publicidade nas redes sociais — stories do Instagram, vídeos no TikTok, posts no Twitter — é muito mais difícil de controlar, tanto pela sua natureza efémera como pela dificuldade de distinguir conteúdo orgânico de conteúdo patrocinado.
Os patrocínios desportivos ocupam uma zona cinzenta. A maioria dos clubes de futebol portugueses tem patrocínios de operadores de apostas, com as marcas visíveis nas camisolas, nos estádios e nas transmissões. É publicidade indireta mas de alta visibilidade, particularmente eficaz junto de audiências jovens que associam os seus clubes favoritos às marcas patrocinadoras.
Debate Atual: Limitar Mais ou Manter o Equilíbrio?
40% dos jogadores online em Portugal continuam a apostar em plataformas ilegais. Ricardo Domingues, presidente da APAJO, argumentou que a publicidade é a única verdadeira vantagem que os operadores licenciados têm sobre os ilegais — e que é a forma do consumidor português distinguir entre o licenciado e o não licenciado, o seguro e o inseguro.
Este argumento cria um dilema genuíno para o regulador. Se a publicidade dos operadores legais for excessivamente restringida, os operadores ilegais — que não cumprem nenhuma regra — ganham vantagem relativa. O consumidor que não encontra informação sobre operadores legais pode ser mais facilmente atraído por operadores ilegais que operam sem restrições publicitárias.
Do outro lado do debate estão as preocupações de saúde pública. A exposição constante a publicidade de apostas normaliza o jogo, particularmente junto de audiências jovens. Os estudos internacionais sugerem uma correlação entre intensidade publicitária e iniciação ao jogo, embora a causalidade seja debatida. O IAJ e outras entidades de apoio ao jogador defendem restrições mais apertadas, particularmente nos canais digitais.
Vários países europeus optaram por caminhos diferentes. A Itália proibiu toda a publicidade de apostas em 2019. A Espanha impôs restrições horárias severas. A Bélgica e os Países Baixos seguiram caminhos semelhantes. Os resultados destas medidas são mistos: nalguns casos, o mercado ilegal cresceu; noutros, a exposição ao jogo diminuiu sem impacto significativo no mercado regulado.
Portugal está neste momento a navegar entre os dois extremos. Não proibiu a publicidade, mas as vozes a favor de restrições mais fortes — particularmente nas redes sociais e nos patrocínios desportivos — ganham força à medida que os dados sobre jogo problemático jovem se acumulam.
O Impacto nos Consumidores e no Mercado Ilegal
61% dos utilizadores de operadores ilegais não sabem que estão a cometer uma infração. Este dado é, talvez, o argumento mais forte a favor da publicidade dos operadores legais: se a maioria dos jogadores no mercado ilegal nem sequer sabe que está no lado errado, a solução passa por mais informação, não por menos.
O impacto da publicidade no consumidor é bidimensional. Por um lado, informa: mostra quais são os operadores legais, quais as funcionalidades disponíveis, quais as promoções. Por outro lado, estimula: normaliza o jogo, cria urgência com ofertas limitadas no tempo, associa as apostas a momentos de prazer desportivo. A mesma publicidade que protege o consumidor ao direcioná-lo para o mercado regulado pode também prejudicá-lo ao incentivar comportamentos de jogo excessivo.
Para o apostador individual, a recomendação é simples: trata a publicidade de apostas como tratas qualquer outra publicidade. Os bónus “imperdíveis” têm condições. As odds “imbatíveis” têm margens. Os influencers que mostram ganhos têm contratos. A literacia publicitária é a defesa mais eficaz contra o marketing agressivo — tanto dos operadores legais como dos ilegais.
O equilíbrio ideal entre promoção e proteção ainda não foi encontrado em Portugal — nem, de resto, em nenhum país europeu. O debate continua, e é saudável que continue. O que importa é que as decisões sejam baseadas em dados, não em reações emocionais, e que contemplem tanto os direitos dos consumidores informados como a proteção dos mais vulneráveis.
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Veja também o artigo sobre influencers e apostas ilegais.