Redes Sociais São a Principal Porta de Entrada para o Jogo Ilegal
36,8% dos jogadores que apostam em plataformas ilegais chegaram lá através das redes sociais. Outros 42,1% foram levados por recomendações de amigos. São números da APAJO que revelam uma verdade incómoda: o mercado ilegal não se alimenta de hackers sofisticados nem de sites escondidos na dark web. Alimenta-se do Instagram, do TikTok, do YouTube e do Telegram — e de influencers que fazem o papel de intermediários.
Nos meus nove anos a analisar este mercado, o crescimento da promoção de apostas ilegais nas redes sociais é o fenómeno que mais me preocupa. Não pela sua novidade, mas pela sua eficácia. Os jovens entre os 18 e os 34 anos — exatamente a faixa etária em que 43% apostam em plataformas ilegais — são os maiores consumidores de conteúdo nas redes sociais. O canal de distribuição e o público-alvo coincidem de forma perfeita.
Como Funciona a Promoção de Operadores Ilegais por Influencers
Entre os 18 e os 34 anos, a percentagem de jogadores em plataformas ilegais sobe para 43%. Ricardo Domingues, presidente da APAJO, referiu que alguns dos influencers que promovem jogo ilegal estão fora do país e são difíceis de alcançar, com vários associados a atividades duvidosas envolvendo criptomoedas.
O mecanismo é direto. O operador ilegal contrata um influencer para promover a plataforma junto da sua audiência. O influencer publica conteúdo — stories, reels, vídeos, posts — mostrando apostas “ganhas”, odds aparentemente superiores às dos operadores legais e bónus que parecem demasiado bons para serem verdade. Porque são. Não há termos e condições visíveis, não há avisos de jogo responsável, não há menção a licenças ou regulação.
O modelo de remuneração varia. Alguns influencers recebem um pagamento fixo por publicação. Outros operam com links de afiliação — recebem uma comissão por cada jogador que se regista e deposita através do seu link. Este segundo modelo é particularmente perverso porque alinha os incentivos do influencer com o volume de apostas dos seus seguidores: quanto mais apostam, mais ele ganha.
Há uma sofisticação crescente nesta promoção. Os influencers mais experientes não promovem diretamente o operador ilegal. Criam “grupos de dicas” no Telegram ou no WhatsApp, onde partilham palpites e análises. A ligação ao operador é feita de forma indireta: “para seguirem estas dicas, registem-se aqui”. A mensagem é de conteúdo educativo; o objetivo real é aquisição de clientes para o operador ilegal.
Escala do Problema: Bloqueios, Multas e Ações do SRIJ
Desde 2015, o SRIJ realizou 1633 notificações de encerramento a operadores ilegais, bloqueou mais de 2631 sites e apresentou 57 participações ao Ministério Público. São números que demonstram atividade, mas que precisam de contexto: novos sites surgem constantemente, e o bloqueio de um domínio resolve-se em minutos com a criação de outro.
O combate ao mercado ilegal enfrenta limitações estruturais. Os operadores estão sediados fora de Portugal, frequentemente em jurisdições com pouca cooperação internacional. Os domínios podem ser alterados rapidamente. As redes sociais, apesar de terem políticas contra a promoção de jogo ilegal, aplicam-nas de forma inconsistente — é mais fácil denunciar e remover um post do que prevenir a sua publicação.
A questão dos influencers adiciona uma camada de complexidade. Um influencer português que promove um operador ilegal pode estar a cometer uma infração, mas a aplicação da lei é lenta e os precedentes escassos. Quando o influencer reside fora de Portugal, a jurisdição torna-se ainda mais difusa. O resultado é uma impunidade de facto que incentiva a continuação da prática.
As receitas brutas estimadas do mercado ilegal — entre 250 e 500 milhões de euros anuais — representam um volume que nenhuma economia regulada pode ignorar. É dinheiro que escapa à tributação, que não financia programas de jogo responsável e que circula num ecossistema sem qualquer supervisão.
Como Proteger-se da Publicidade Enganosa nas Redes Sociais
Pedro Hubert, diretor do IAJ, expressou preocupação particular com a publicidade nas redes sociais e o papel dos influencers. A sua posição é clara: regulação e limitação sim, proibição não — mas a publicidade pelo online e pelos chamados influencers é o que mais preocupa.
A primeira defesa é o ceticismo. Se um influencer te mostra ganhos consistentes nas apostas e te direciona para uma plataforma específica, questiona: porque é que alguém que ganha tanto dinheiro a apostar precisa de promover um operador? A resposta, quase sempre, é que os ganhos mostrados são fabricados ou selecionados e que a verdadeira fonte de rendimento é a comissão do operador.
A segunda defesa é a verificação. Antes de te registares em qualquer plataforma promovida nas redes sociais, verifica se tem licença SRIJ. Se não está na lista de operadores autorizados, não te registes — independentemente de quem a recomenda. Um domínio .pt não é garantia de legalidade, e um influencer com milhares de seguidores não é garantia de fiabilidade.
A terceira defesa é a denúncia. Se identificares conteúdo que promove operadores ilegais nas redes sociais, denuncia-o na própria plataforma e, se possível, junto do SRIJ. Cada denúncia contribui para um combate que depende, em parte, da colaboração dos consumidores.
A quarta defesa é a educação. Se tens filhos, irmãos mais novos ou amigos jovens que consomem conteúdo nas redes sociais, conversa com eles sobre a diferença entre um operador licenciado e um ilegal. 61% dos utilizadores de operadores ilegais nem sequer sabem que estão a cometer uma infração — a ignorância é a maior arma do mercado ilegal, e a informação é o melhor antídoto. Não se trata de moralizar o jogo; trata-se de garantir que quem escolhe apostar o faz em condições seguras.
Há uma ironia neste cenário que vale a pena sublinhar: os operadores legais investem milhões em marketing dentro das regras, pagam impostos e cumprem regulação, enquanto os ilegais chegam a mais pessoas a custo zero através de influencers. A diferença entre o mercado regulado e o desregulado nunca foi tão visível como nas redes sociais.
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