Quem São os 1,23 Milhões de Apostadores Ativos em Portugal
Se te pedissem para descrever o apostador português típico, o que dirias? A maioria das pessoas imagina um homem jovem, de Lisboa ou do Porto, a apostar no telemóvel durante o intervalo de um jogo de futebol. E, olhando para os dados do SRIJ, essa imagem não está longe da realidade — mas tem nuances que raramente se discutem.
Em 2025, Portugal tinha cerca de 1,23 milhões de apostadores ativos — um aumento de 12% face a 2024. 77,4% desses jogadores têm menos de 45 anos, com a faixa dos 25 aos 34 anos a representar 33,4% do total. São números que definem um mercado jovem, digital e com hábitos de consumo muito diferentes dos jogadores de casino físico de há duas décadas.
Faixa Etária e Género: Jovens e Homens Dominam o Perfil
A última vez que analisei dados demográficos do mercado português, o que mais me impressionou não foi a predominância masculina — isso era previsível — mas a velocidade com que os mais jovens estão a entrar no mercado. No terceiro trimestre de 2025, 32,4% dos novos registos vieram de jogadores entre os 18 e os 24 anos. É a faixa etária com maior peso nos novos registos, o que significa que o mercado está a rejuvenescer, não a envelhecer.
A disparidade de género é marcada: 27% dos homens entrevistados declararam ter feito apostas online, contra apenas 4% das mulheres. É uma das maiores disparidades de género no consumo de entretenimento digital em Portugal. As razões são múltiplas — culturais, de marketing, de produto — mas o resultado é claro: o mercado português de apostas é esmagadoramente masculino.
Esta concentração demográfica tem implicações diretas. Os operadores desenham os seus produtos, promoções e interfaces a pensar no homem de 20 a 35 anos que acompanha futebol. Isto significa que segmentos potenciais — mulheres, apostadores acima dos 50, interessados em desportos de nicho — estão subservidos. Para o apostador que não encaixa no perfil dominante, a experiência pode ser menos otimizada, mas os mercados e as oportunidades são os mesmos.
Lisboa e Porto Concentram 42% dos Registos
A geografia das apostas em Portugal espelha a geografia do país: concentração nos dois grandes centros urbanos. Lisboa representa 20,7% de todos os registos de jogadores; o Porto, 21,2%. Juntas, as duas cidades concentram mais de 42% do mercado.
94,6% dos jogadores registados têm nacionalidade portuguesa. Os 5,4% restantes incluem uma presença significativa de brasileiros, que representam 49% dos registos internacionais — reflexo da grande comunidade brasileira residente em Portugal e da popularidade das apostas desportivas no Brasil.
O que os dados não captam diretamente é a distribuição do volume de apostas por região. É provável que a concentração em Lisboa e Porto seja ainda mais acentuada em termos de euros apostados do que em termos de número de contas, dado o maior poder de compra nestas áreas metropolitanas. Os distritos do interior e do sul continental têm menos registos, o que pode refletir tanto menor interesse como menor penetração do marketing dos operadores.
Para os operadores, esta concentração geográfica é simultaneamente uma oportunidade e uma limitação. Oportunidade porque permite campanhas de marketing focadas. Limitação porque o crescimento futuro depende da capacidade de expandir para além de Lisboa e Porto — o que exige estratégias diferentes de comunicação e, possivelmente, parcerias com eventos desportivos regionais.
Tendências: Novos Registos em Queda, Jogo Problemático Jovem em Alta
Pedro Hubert, diretor do Instituto de Apoio ao Jogador, fez uma observação que ecoa nos dados: a idade média de quem procura ajuda já não é 30 anos, mas sim 20, 22, 23. É uma tendência que exige atenção urgente, porque coincide com o rejuvenescimento do mercado que os dados de novos registos confirmam.
Os novos registos de contas em 2025 totalizaram 910 mil — uma queda de 21,8% face a 2024. Esta redução não significa que o mercado está a encolher, mas que a base de potenciais novos apostadores está a saturar. O total de contas registadas no final de setembro de 2025 era de 4,94 milhões — num país com cerca de 10 milhões de habitantes, é uma penetração notável, mesmo que muitas destas contas estejam inativas.
A combinação de novos registos em queda com um aumento da autoexclusão entre os mais jovens pinta um quadro complexo. O mercado está a amadurecer, mas os problemas de jogo estão a manifestar-se mais cedo. Cada jogador jovem que se autoexclui representa um caso em que as ferramentas de proteção funcionaram — mas também representa um jovem que chegou a um ponto em que precisou dessas ferramentas.
Do ponto de vista analítico, o mercado português de apostas está numa fase de transição. O crescimento explosivo dos primeiros anos pós-regulação deu lugar a uma maturação que implica menos novos apostadores, maior valor médio por apostador e uma atenção crescente ao jogo responsável. Para quem aposta, isto traduz-se em operadores que competem cada vez mais pela retenção — melhores odds, melhores funcionalidades, melhor experiência — em vez de apenas pela aquisição. É, no fundo, uma evolução positiva para o apostador informado.
Há uma última dimensão demográfica que merece atenção: a presença crescente de brasileiros no mercado português. Com 49% dos registos internacionais, os jogadores brasileiros residentes em Portugal são um segmento relevante. Os operadores já respondem a esta realidade com conteúdo e promoções direcionadas, mas a integração deste público no ecossistema de jogo responsável é um desafio adicional — diferenças culturais na relação com o jogo, expectativas diferentes de odds e mercados, e uma familiaridade com operadores brasileiros que nem sempre têm equivalente no mercado regulado português.
Conhecer o perfil do apostador português não é um exercício de curiosidade sociológica. É a base para perceber o mercado: porque é que certos operadores dominam, porque é que certas promoções funcionam, porque é que certos problemas persistem. Os dados estão lá. Falta quem os leia com atenção.
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