O Mercado Português em Números: Receita Bruta e Volume em 2025
A receita bruta do jogo online em Portugal em 2025 atingiu 1,2 mil milhões de euros. O volume total de apostas ultrapassou os 23 mil milhões de euros. São números que transformam o jogo online num dos setores de entretenimento mais relevantes da economia portuguesa — e, no entanto, a maioria das pessoas não faz ideia da dimensão real deste mercado.
Acompanho estes dados trimestralmente desde que o SRIJ começou a publicá-los, e a evolução é impressionante. Em 2024, o setor ultrapassou pela primeira vez mil milhões de euros em receita bruta anual, com um crescimento de 42% face a 2023. Em 2025, a receita chegou a 1,2 mil milhões — ainda a crescer, mas a 8,5%, o menor ritmo de sempre. A tendência é clara: o mercado atingiu uma dimensão significativa e está a entrar numa fase em que o crescimento se torna incremental, não explosivo.
Para colocar estes números em perspetiva: 23 mil milhões de euros em volume de apostas equivale a mais de 2000 euros por cada português adulto, se distribuíssemos uniformemente. Obviamente, a distribuição não é uniforme — há apostadores que movimentam dezenas de milhares de euros por ano e milhões de portugueses que nunca apostaram online. Mas a escala do mercado é inegável.
Desporto vs. Casino: Composição da Receita
A primeira vez que analisei a composição da receita do jogo online português, a surpresa foi perceber que o casino online domina claramente as apostas desportivas em termos de receita bruta. A perceção pública é a oposta — as apostas desportivas são mais visíveis, mais discutidas, mais presentes no marketing e nos patrocínios. Mas os números contam outra história.
A receita bruta de apostas desportivas em 2025 foi de 447 milhões de euros, com um crescimento de apenas 3,23% — o menor de sempre. Os jogos de fortuna ou azar geraram 759 milhões de euros, com crescimento de 11,85%. No segundo trimestre de 2025, o casino online representava 62% da receita bruta total do jogo online.
A explicação é estrutural. Nas apostas desportivas, o operador retém uma margem pequena — tipicamente entre 5% e 12% do volume apostado. No casino, a margem é substancialmente superior: as slots, que dominam o segmento com cerca de 80% do total de apostas de casino, têm um retorno ao jogador de 85% a 97%, mas o volume de jogo por sessão é muito mais elevado. Um jogador de slots pode “rodar” o mesmo dinheiro dezenas de vezes numa hora, gerando receita para o operador em cada rotação.
Para o apostador desportivo, este dado é relevante por uma razão indirecta: a receita de casino subsidia, em parte, a operação de apostas desportivas. Operadores que têm forte presença no casino podem permitir-se margens mais apertadas nas apostas desportivas porque compensam noutro segmento. É uma dinâmica que afeta as odds que te são oferecidas.
IEJO: A Receita Fiscal Recorde de 353 Milhões de Euros
A receita fiscal do jogo online — o IEJO — atingiu 353 milhões de euros em 2025, um recorde absoluto e um crescimento de 5,4% face a 2024. No terceiro trimestre de 2025, o IEJO foi de 89,8 milhões de euros, um aumento de 8,8% face ao período homólogo. No primeiro semestre de 2025, o acumulado era de 163,9 milhões de euros.
Estes 353 milhões de euros alimentam múltiplas vertentes do Estado português: Turismo de Portugal (que tutela o SRIJ), federações desportivas, Ministério da Saúde e programas de prevenção do jogo problemático. É um fluxo financeiro que não existia antes de 2015 e que se tornou estrutural para o financiamento de várias entidades públicas.
A taxa do IEJO difere entre segmentos: 8% sobre o volume de apostas desportivas, 25% sobre a receita bruta de casino. Esta diferença explica porque é que, apesar de o casino gerar mais receita bruta, a contribuição relativa de cada segmento para o IEJO não é proporcional à receita — as apostas desportivas, tributadas sobre o volume total (não sobre a margem), contribuem de forma significativa mesmo quando a receita bruta é menor.
Há um debate crescente sobre a sustentabilidade do modelo. Com o crescimento da receita a abrandar, o crescimento do IEJO abranda também. Se o mercado estabilizar ou crescer a ritmos de 3% a 5% ao ano, a receita fiscal estabiliza numa faixa que pode não acompanhar as necessidades de financiamento crescentes. A revisão do modelo fiscal do jogo online é um tema que provavelmente entrará na agenda política nos próximos anos.
Crescimento em Desaceleração: Sinais de Maturidade
Ricardo Domingues, presidente da APAJO, foi claro: os dados de 2025 confirmam uma desaceleração do crescimento que se verifica há uns anos e que se acentuou de forma marcada, característica de um setor que entra em fase de maior maturidade.
A receita bruta no terceiro trimestre de 2025 foi de 297,1 milhões de euros — o segundo maior registo trimestral de sempre, com crescimento homólogo de 11,6%. Mas o ritmo está longe dos 30% a 40% dos anos anteriores. A curva de crescimento está a achatar, o que é natural e, em muitos aspetos, saudável.
Um mercado maduro é um mercado mais previsível, mais estável e, tipicamente, mais favorável ao consumidor. Os operadores que sobrevivem à fase de crescimento acelerado tendem a competir pela qualidade do produto em vez de pela agressividade promocional. As margens podem tornar-se mais competitivas à medida que a concorrência se intensifica. As funcionalidades melhoram porque os operadores precisam de reter clientes, não apenas de os atrair.
O desafio permanente é o mercado ilegal, que absorve entre 250 e 500 milhões de euros anuais em receitas brutas estimadas. Se o mercado regulado atingiu a maturidade com 40% dos jogadores ainda no ilegal, o potencial de crescimento não está esgotado — está bloqueado. A capacidade de converter jogadores ilegais em jogadores regulados é, provavelmente, a maior alavanca de crescimento restante para o mercado português.
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